YouTube: a chave extra do armário

Cena do Filme do O primeiro que disse | Imagem: divulgação

Cena do Filme do O primeiro que disse | Imagem: divulgação

Uma sala de jantar. O patriarca da casa sentado à cabeceira da mesa com sua esposa à destra. Dois irmão gays, ainda no armário, ensaiam como contar à família tradicionalista que são gays. O irmão mais novo tenta chamar a tenção de todos para fazer a revelação ao bater com uma faca na taça de cristal. No entanto é o mais velho que, surpreendentemente, diz a família ser gay. A primeira reação dos presentes é de espanto, depois de riso e, por fim, de fúria. Até o momento em que pai expulsa o filho de casa por sentir vergonha de ter um descendente homossexual.

Na cena descrita acima, do filme O primeiro que disse (Itália, 2010)o diretor turco Ferzan Özpetek explora a saída do armário do armário acontece em uma traumática reunião de família, como em muitos relatos de momentos semelhantes que se tem conhecimento. Alguns onde o final foi feliz e outros onde o resultado é análogo ao de Antonio, personagem do longa Özpetek. Situações desse tipo, em que reações adversas podem suceder, exigem do que sai do armário a coragem de quem se lança ao campo de batalha sem qualquer escudo. Para muitos homossexuais, está é única alternativa: enfrentar a família face à face e esperar a reação. Outros já encontraram meios modernos se revelar a familiares e amigos ou mesmo confirmar rumores, através a internet.

Muitxs homossexuais, jovens principalmente, têm encontrado na internet uma ferramenta para dizer aqueles em seus círculos de convivência quem são. Em uma rápida busca na rede, é possível encontrar muitos vídeos com depoimentos, dicas de incentivo e até registro de reações de familiares à notícia, que mostra o quanto tudo pode ser inesperado. Felizmente, a maioria dos vídeos trazem boas histórias. As más, não chegam a ser registradas e as vítimas vagam por abrigos ou casas que não são as suas.

Em um artigo chamado Conexões, a doutora em sociologia pela New School for Social Research (EUA), Heloisa Pait, reflete as relações contemporâneas dos jovens com os meios tecnológicos, principalmente digitais, como os telefones. “Os jovens às vezes usam esses meios para se comunicar com pessoas próximas, às vezes para romper barreiras geográficas. E em outros momentos ainda para as duas coisas, sem nem se preocupar com as distâncias reais”, pondera a pesquisadora.

Nestes vídeos que têm se multiplicado por inúmeros canais do YouTube, encontramos a expressão de sentimento e valores comuns que circundam o armário, disseminados em uma onda que  tem se espalhado pelo mundo, como assinala Pait, ultrapassando as fronteiras. Sentimentos esses, ligados principalmente ao julgamento de caráter e o medo de rejeição, que imprimem formas variadas de associação ente quem faz o vídeo e os que o assistem, tais como compartilhamentos e comentários de auto-identificação.

No telefone o pais diz aos filhos: "Vocês são normais"

No telefone o pais diz aos filhos: “Vocês são normais”

Quero comparar aqui como se dão essas reações e interações ao se usar um vídeo para sair do armário. Começo citando o vídeo de dois irmãos gêmeos, Aaron e Austin Rhode, que resolveram contar ao pai por telefone que são gays. Enquanto o faziam, gravaram tudo. A reação do pai dos garotos, a pesar do medo dos filhos, é de apoio ao dizer no vídeo abaixo: “Eu não posso deixar de ser seu pai”. (versão original aqui)

Outro exemplo é o vídeo feito pelo modelo Frederico Devito, que assumiu publicamente sua homossexualidade, após rumores em torno de uma foto com um ex-namorado postada em uma rede social. O vídeo, que pode ser visto aqui, foi compartilhado aos montes, como exemplo a ser seguido. Há um outro vídeo onde as reações são muito interessantes de serem observadas. Coincidentemente, dois irmão contam para os pais, na cozinha, e a mãe os enche de pergunta sobre como lidaram com esse segredo durante tanto tempo. O vídeo pode ser visto (em inglês) aqui. A cena se aproxima do filme de Özpetek, mas os pais parecem mais curiosos em saber quem realmente são os filhos, ao invés de julgá-los.

Se como afirma George Simmel,  um fenômeno social é sempre resultado da tensão entre pólos opostos. Nesse caso, o medo e coragem de deixar o armário. Talvez, estejamos diante da única via que os jovens imersos em sua solidão tecnológica encontraram para expressar a dor que sentem ao viver a plenitude do armário: compartilhá-la com o maior número de pessoas possíveis e, assim, conseguir apoio antes de se ser mais um número do preconceito.

Falar sobre o próprio armário é um desafio, porque infelizmente, os sentimentos negativos associados a ele, não são discutidos dentro do universo heteronormativo. A vergonha de ter um filho gay ou de não querer este tipo de vida para o filho, amigo ou quem quer que seja, parece ser sempre maior do que a dor de quem está escondido. Nessas circunstâncias, ter uma chave para abrir a porta é uma necessidade que dispensa qualquer crivo.

Para muitos, a reunião de família, a conversa sincera, não pode e ou não deve ser substituída. Seria uma ingenuidade pensar que este tipo de interação online pode superar, em qualquer grau, o nível de confiança e respeito que se encontra em um coração aberto, ouvidos atentos, e no desejo de entender. Em contra partida, inúmeros comentários mostram o quanto outras pessoas se sentem encorajadas a mudarem suas vidas em ver e ouvir essas experiências. O verdadeiro fenômeno pode está aí, nesta bola de neve. Em uma espécie de Ice Bucket Chllange, às vezes silencioso, onde se doa a esperança de viver em mundo sem preconceito em visualizações.

É um esforço coeso dignificante e muito válido, pode se dizer. O que preocupa, é que este movimento virtual, a exemplo de outros, não venha a produzir um efeito real na vida cotidiana, por está muito distante de famílias imersas no machismo. Distante, ainda, das rodas de amigos no trabalho e de mesas de jantares no Brasil e no mundo onde  é um erro dizer o que se sente.

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