Um transfóbico que ainda não aprendeu que travesti não é bagunça

As agressões sofridas por Sofia Favero, 20 anos, travesti, enquanto estava em um ônibus indo para a faculdade onde estuda na cidade de Aracaju-SE, no último dia 15 de maio, refletem o quanto a população brasileira permanece na ignorância em relação a travestis e transsexuais. Primeiro, ela foi apalpada por um homem que a “confundiu” com uma mulher e, depois, ameaçada por outro com uma faca. Ele também a agrediu fisicamente. E como se ainda fosse pouco, foi ridicularizada por muitos passageiros dentro do um ônibus lotado. Este caso terminou na delegacia, onde Sofia procura identificar e punir, de alguma forma, seus agressores, mas não terminou nas redes sociais, um local onde continua sendo agredida por transfóbicos de plantão.

Na manhã do último sábado, 17, em meio ainda a repercussão do caso que teve espaço em veículos de comunicação nacionais,  José Pedro d”Alcântara fez um comentário carregado de preconceito em uma das postagens da página Travesti Reflexiva no Facebook, que é administrada por Sofia. Sabiamente, ela respondeu ao comentário citando a Justiça brasileira, que tornou possível a alteração do seu gênero em sua carteira de identidade. Entretanto, eu quero chamar atenção para alguns dos argumentos do senhor transfóbico ao agredir Sofia, que muito se assemelham aos tipos de dívidas e reservas que ouço quando o assunto é as travestis.

“Bota uma sainha, dois quilos de maquiagem e sai por aí com seus quase 1,90m de altura, ombros largos, pés enormes, voz grossa, navalha no decote e ainda quer convencer que é mulher“, escreveu José.  Quero começar dizendo a ele que nem toda mulher é igual e nem precisa ser. Uma travesti não quer convencer ninguém de que é uma mulher, porque o esforço que se emprega em enfrentar a massa de ignorantes, que apenas se recusa a enfrentar as diferenças, é para estar bem consigo mesma e não se assemelhar a ninguém. Existe, porém, uma relação paradoxal nessa recusa de José, que Hélio Silva exemplifica bem em sua etnografia sobre as travestis que se prostituíam no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro, nos anos 1990.

“Os ‘curiosos’ do travesti tecem comentários minuciosos sobre a performance, procurando flagrar aquele aspecto, aquele gesto, aquela parte do corpo que trai o projeto, ou que o trairia. E, paradoxalmente, ficam extasiados naqueles casos raros em que não podem deixar de admitir: ‘É, passa por uma mulher'”, escreveu Silva sobre o êxtase, muito próximo da loucura, que gera a violência, a agressão. Da mesma maneira, José descreve aspectos físicos de sofia que “traem” o projeto, como isso fosse um crime – não convencer que é uma mulher – passivo de punição, desprezo. Ah, meu caro, a bagunça está na sua mente, não no corpo da travesti.

Travesti reflexiva

O rapaz segue atacando Sofia com seu conceito de gênero feminino estranho e obsoleto, onde caberia perguntar se uma mulher cisgênera  (que se percebe social, cultural, política e psicologicamente de acordo com a identidade que lhe foi designada em função do seu genital) faz uma cirurgia de histerectomia radical – procedimento cirúrgico onde útero, ovários e trompas são retiradas do corpo – deixa de ser uma mulher por ter perdido seu aparelho reprodutor? A resposta é não, porque não é o aparelho reprodutor que faz alguém ser mulher. Há muitos outros aspectos que constituem a identidade feminina, que sim, José, podem ser construídos, sejam através de hormônios ou cirurgias estéticas.

A expressão de gênero feminino é muito mais ampla e diversa do que a capacidade de gerar uma criança. Uma pessoa trans não precisa passar por um processo de redesignação genital – cirurgia realizada, inclusive, pelo Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2008 – para ser/sentir-se mulher. Entenda José, que a identidade de gênero independe das minúcias da anatomia.  Seu “nunca”, escrito em caixa alta, não representa nada além de sua ignorância sobre o gênero feminino, transsexuais, travestis, agêneros ou bigêneros. A coisa vai muito além de sua ideia binária de homem e  mulher.

“O parlamento pode tudo, menos transformar um homem em mulher. Isso é uma ficção jurídica“, esbraveja José ignorando inúmeras decisões do Judiciário transformado nomes sociais em nomes oficiais, decisões essas, amparadas por leis já existentes. Não há mais o que se impedir José. Em um Estado Democrático de Direito, como é o Brasil, onde há independência de poderes, o legislativo não pode dar uma nova interpretação a leis que já foram criadas e estão em vigor. Pode-se alterar, revogar, criar novas leis, contudo, dificilmente retrocederemos nesse assunto. Há ainda resoluções e portarias dos ministérios da Saúde, Planejamento, Trabalho e Educação que regulamentam, em suas esferas, a inclusão do nome social das travestis em registros oficiais. O Estado brasileiro tem reconhecido homens que se tornaram mulheres – apesar da ausência de uma legislação específica -,  isso é uma realidade concreta, não uma ficção.

“Imaginem se nos vamos permitir (…) que uma aberração dessas dê aula para nossos filhos, trabalhe em nossas repartições públicas, sejam médicos ou psicólogos ou advogados”,  José se equivoca novamente ao usar a palavra “permitir”. Bom, isso me lembra um matéria bem esclarecedora da Folha de São Paulo, de março deste ano, sobre transsexuais e travestis que venceram o preconceito do mercado de trabalho e  conseguiram respeito sem precisar da permissão de José ou qualquer outro que se sinta ofendido com a visibilidade trans. Existem advogadas, delegadas, professoras, cabeleireiras, profissionais liberais de toda espécie, livres para exercerem seus ofícios longe das ruas, ao contrário do que ele afirma ao dizer que “se quiserem viver dessa forma abjeta, terão que ser prostitutas e fazer seus números de circo em boates gays. Este é o lugar que a sociedade tem para vocês“.

Muitas travestis estão nas ruas, muitas ainda irão e algumas, que estão, não sairão até que tenhamos políticas públicas que promovam o respeito à diversidade de gênero e leis que tornem atitudes homotransfóbicas em crime. É preciso lembrar que a promoção das pessoas trans não é uma questão isolada ou um capricho de militância, mas inerente à luta pelos direitos humanos. O respeito a esse diversidade, reflete o nível de instrução e desenvolvimento cultural e político de uma sociedade, bem como o tamanho do desafio que é preciso vencer e no Brasil, infelizmente, esse desafio ainda é enorme, como sabemos. Porém, não podemos deixar de dizer a José ou qualquer outro: “Me aceita, dói menos!”

Anúncios

2 pensamentos sobre “Um transfóbico que ainda não aprendeu que travesti não é bagunça

  1. Além dos equívocos do transfóbico, que foram apontados no texto, o que me tira do sério é esse “direito” que alguns acham que têm, de invadir o espaço – ainda que virtual – de alguém e despejar insultos e agressões verbais a torto e a direito. Esse tipo de coisa inda acontece porque não temos uma lei anti-homofobia que poria preso alguém desse nível. As pessoas fazem gato e sapato de nós da sigla porque saem impunes. Escrevi um texto sobre a necessidade de uma lei anti-homofobia (http://jonparedes.blogspot.com.br/2014/03/importancia-de-uma-lei-anti-homofobia.html).
    Jon

  2. Pingback: Um transfóbico que ainda não aprendeu que travesti não é bagunça | cmgsex

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s