‘G0ys são homens com particularidades’, afirma divulgador do movimento em entrevista

Ennis Del Mar, personagem do filme O Segredo de Brokeback Mountain (EUA, 2005), interpretado por Heath Ledger, seria uma das personificações da filosofia g0y. | Reprodução

Ennis Del Mar, personagem do filme O Segredo de Brokeback Mountain (EUA, 2005), interpretado por Heath Ledger, seria uma das personificações da filosofia g0y. | Reprodução

Há um pouco mais de um mês tomei conhecimento da movimento g0y ao ler um post, escrito por James Cimino para o site Lado Bi, sobre uns  “caras que amam a masculinidade, mas que rejeitam o rótulo de gays”. Logo depois disso, outros veículos online LGBT publicaram matérias a respeito do assunto, divulgando o ideário do movimento contido no site norte-americano G0ys.org e no brasileiro Hetero G0y, até que, na última semana, a grande mídia brasileira popularizou o assunto. Não demorou muito para que surgissem opiniões diversas sobre o novo termo, que define uma maneira antiga de se viver as relações homoafetivas.

Em meio a tantos conceitos, fiz uma pesquisa nas muitas comunidades g0ys que existem no Fecebook e me deparei com o universitário Joseph Campestri, de 30 anos, que se identifica na rede como divulgador do movimento  – tendo, inclusive, seu posts sendo citado em diferentes comunidades g0ys do Brasil como referência de conceito do termo. Campestri, que estuda sociologia, é de Belém-PA e vive atualmente em Brasília-DF, de onde faz o trabalho dedicado de divulgação da filosofia g0y em vários grupos, tanto norte-americanos quanto brasileiros. É tão dedicado à “causa”, que criou a bandeira g0y, que tem sido adotada ao redor do mundo por homens que se identificam com os mesmo princípios da comunidade.

Ao longo de um entrevista, realizada no último dia 18 de abril, o  paraense que preferiu não revelar seu nome verdadeiro, procura esclarecer com suas respostas as dúvidas, que surgiram ao longo da última semana, a respeito da identidade g0y. Campestri esmiúça como se dão as relações g0ys dentro de seus limites rígidos de afetividade e liberação sexual. Fala dos papeis do homem e da mulher dentro da sociedade e qual o posicionamento do g0y diante dos atuais conceitos das relações homoafetivas. A conversa trouxe ainda uma observação importante concernente a diferença entre o participantes do movimento g0y nos Estados Unidos – onde se originou a termo – e os brasileiros que já começam a exercer um olhar mais amplo e liberal sobre os estatuto do movimento, mais alinhado a nossa realidade policultural.

Ao ler a entrevista, é importante que tenhamos em mente o que o psicólogo Gilmaro Nogueira, mestre em Cultura e Sociedade pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) –  autor de um artigo esclarecedor – me disse em uma conversa sobre a temática. “Como uma contestação da heterossexualidade naturalizada, tradicional, que supõe que ser homem é necessariamente ter atração sexual por mulheres, g0ys e outros termos são tentativas de nomear uma diversidade de experiências que extrapolam as identidades tradicionais: hetero e homo”.

Homos S/A – Primeiro, como se pronuncia ‘g0y’ em português?

Joseph Campestri – De duas maneiras, soletrando g-0-y (gê-zero-ípsilon) ou gói. A escrita mais comum é g0y ou g-zero-y.

H S/A – O que você sabe a respeito da história do movimento e quando tomou contato com a filosofia? 

JC – Pelo que tomei conhecimento, esse movimento tem origem nos Estados Unidos e tomou forma a partir dos ano 2000, melhor dizendo, a filosofia, o movimento é mais recente, mas não saberia precisar a data. Eu conheço a filosofia g0y desde abril/maio de 2011, como você pode checar em meu perfil. E me identifiquei pelos dois pontos motrizes da filosofia, o primeiro é o apreço e a preservação da própria masculinidade e o segundo é não sentir necessidade ou inclinação ao sexo anal.

H S/A – Ao defender esses pontos, você acredita que os norte-americanos são mais ortodoxos que os brasileiros?

JC – Depende do contexto, do ponto de referência. Não há nada de radical ou bastante intenso em defender os princípios da filosofia g0y. Nós vivemos no Brasil, cultura mais diversificada, várias crenças e religiosidades, somos mais tranquilos quanto a algumas questões. Para nós brasileiros, os estadunidenses podem ser vistos como radicais. Para os estadunidenses, os brasileiros podem parecer muito brandos, permissivos e tolerantes. Eles estão dentro da cultura deles, nós estamos dentro da nossa cultura. Os g0ys de lá e os daqui são g0ys e se expressam de modo diferente sobre as mesmas questões.

H S/A – Você se considera hétero, bissexual ou homossexual?

JC – Considero-me homossexual. É interessante dizer que o movimento foi iniciado por heterossexuais não normativos e que eles são a maioria, entretanto, dentro do movimento a orientação sexual é irrelevante, reconhecemo-nos como g0ys independente se nos relacionamos mais com homens, com mulheres ou com os dois sexos.

H S/A – E sendo homossexual, você não considera a hipótese de ter um relacionamento com outro homem, nos moldes dos relacionamentos homossexuais de hoje ou mesmo heterossexuais?

JC – Não. Por minhas razões pessoais, a filosofia g0y não influencia as opiniões dos que se reconhecem como g0ys.
Identificar-se como g0y é diferente de “converter-se”. Identificar-se é ver a semelhança, observar que suas ideias, seus princípios são os mesmos das outras pessoas. “Converter-se” é aceitar algo exterior e que pode ir de contra aos seus princípios. Eu posso sim considerar um relacionamento com outro homem, mas não nos moldes do casamento heterossexual.

H S/A – E esse molde seria o “bromance” (brother + romance)?

JC – Exato. Há de se reconhecer que em um relacionamento heterossexual há o masculino e o feminino, cada um desempenha seu papel social, tal qual sustenta o ideal popular. Certo? Entretanto, quando se trata de dois homens que mantém seus papéis masculinos, esse “molde” se quebra, não é válido. E sabemos que casamento é outro ponto que não cabe entre dois homens g0ys. Casamento é associado a casal e também a acasalamento. Dois g0ys não poderiam ser considerados um casal, homem e mulher, tampouco acasalarem.

Bandeira do movimento g0y criada pelo brasileiro Joseph Campestri

Bandeira do movimento g0y criada pelo brasileiro Joseph Campestri

H S/A – O movimento tem sido classificado por especialistas em sexualidade e ativistas LGBT como machista, homofóbico e misógino. Você  reconhece isso como verdade?

JC – São inverdades. Gostaria que os especialistas em vez de classificarem, mostrassem de onde tiraram essas interpretações. Ainda pouco foi dito que a maioria dos g0ys se relacionam sexualmente com mulheres e os que não se relacionam, não são contra as mulheres tampouco à feminilidade. Ser e gostar de ser masculino, apreciar a masculinidade não é ser misógino, não é ser contra as mulheres. Por que não pode ser visto como um pouco de amor próprio? Se uma pessoa usa, por exemplo, uma camisa escrito “100% Negro” ela seria racista aos brancos e pessoas de outros tons de pele? Não. Chama-se, amor próprio e apreciação à pele negra. Essa pessoa pode gostar também de sair e namorar pessoas negras, é uma escolha dela, uma preferência e um direito que deve ser respeitado. Desde que essa pessoa não discrimine os outros nem as trate como inferiores. Os g0ys apreciam o masculino e não são melhores do que os outros seres humanos por isso, são seres humanos com qualidades e defeitos, são homens com particularidades.

H S/AMas a substituição do ‘A’ da palavra ‘gay’ por um ‘0’, não tem essa conotação de negação a tudo que é gay, ou mesmo, feminino?

JC – Negativo, a substituição do “A” pelo “0” (zero) é um modo de expressar a negação ao sexo anal, A de anal.

H S/A – Mas dizer que o sexo anal é “sujo”, não é uma forma de inferiorização aos gays que o tem como prática?

JC – Rejeita-se à prática sexual e não aos praticantes. Também se é contra, por exemplo, ao tabagismo, mas não se caça os fumantes. Contra o alcoolismo, mas não se é contra as pessoa que bebem. Contra as drogas, mas não aos usuários. Lógico que meus exemplos são extremos e nocivos ao ser humano, mas os g0ys vêem que biologicamente a penetração anal pode ser prejudicial ao corpo, é só pesquisar. Porém, não se é contra os praticantes que vivem sadios e satisfeitos. É preciso dizer que a filosofia g0y expressa, no site G0ys.org, que também não se pratique o sexo anal com mulheres. Isto é, não se trata de um ataque às preferências sexuais dos gays, apenas um posicionamento de que é desnecessário e irrelevante a prática do sexo anal.

H S/A – Existe armário para os g0ys ou ele não se preocupam em ser abertamente g0ys?

JC – Os g0ys não vivem em guetos, não estão em armários e não sentem a necessidade de se identificar como tais, eles simplesmente são. Identificar-se como g0y não é algo que precise ser exposto para as outras pessoas, identificar-se como g0y é compreender que há muitos homens que pensam e agem do mesmo modo.

H S/A – Então sua família, amigos e vizinhos sabem que você “brinca” com outros homens?

JC – E de que esse conhecimento seria relevante na vida dos meus amigos, familiares e vizinhos? Se não se está fazendo algo que me prejudica nem ao outro, se ambos são adultos e responsáveis pelos próprios atos. O que se passa na vida particular de cada um diz respeito, apenas, à própria pessoa.

H S/A – Como você e os outros g0ys, brasileiros e americanos, encontram seus “brothers”? Essa procura se dá pela internet ou existem outros meios?

JC – Fazemos uma analogia do G-Y com a Geração Y, a geração da Internet. E é justamente através desse instrumento que não apenas os g0ys, mas o mundo inteiro se conecta e procura pessoas com as quais se identificam. Basicamente pela Internet, depois, como todas as amizades bem sucedidas, podem ser combinados encontros sociais para sair do virtual.

H S/A – Você  tem um “brother” ou mais agora?

JC – Sim, eu tenho dois. E todo homem tem um brother, seja esse homem g0y, heterossexual, bissexual ou homossexual ou não.

H S/A – Assim como movimento gay, os g0ys têm uma bandeira. O que ela significa?

JC – Essa bandeira foi criada por mim, aqui no Brasil, e vem sendo adotada por g0ys de outros países. Não que se vá “levantar bandeira” e fazer uma marcha g0y ou algo do tipo. (risos) Não, a bandeira apenas traz alguns princípios que fazem parte de cada homem que se identifica como g0y. O azul é a cor masculina, e é isto que representa os azuis na bandeira: Azul escuro representa profundidade, intensidade. Azul índigo significa guerreiro por natureza. O branco é a paz, amizade e a cor azul turquesa indica integridade. E importante dizer que o movimento g0y não é um movimento militante, apenas se trata de um grupo que se reconhece e se identifica, uma identidade particular.

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4 pensamentos sobre “‘G0ys são homens com particularidades’, afirma divulgador do movimento em entrevista

  1. Alguém conta a ele que o azul era cor feminina até a década de 60? Que ele representa Nossa Senhora e não tem nada de masculino? É muito preconceito sobre o que é ser masculino, na verdade.

  2. Os G0ys podem não dar a bunda, mas cagaram totalmente no pau.

    H S/A – Então sua família, amigos e vizinhos sabem que você “brinca” com outros homens?
    JC – E de que esse conhecimento seria relevante na vida dos meus amigos, familiares e vizinhos? Se não se está fazendo algo que me prejudica nem ao outro, se ambos são adultos e responsáveis pelos próprios atos. O que se passa na vida particular de cada um diz respeito, apenas, à própria pessoa.
    (eu chamo isso de armário seletivo)

    H S/A – Como você e os outros g0ys, brasileiros e americanos, encontram seus “brothers”? Essa procura se dá pela internet ou existem outros meios?
    JC – Fazemos uma analogia do G-Y com a Geração Y, a geração da Internet. E é justamente através desse instrumento que não apenas os g0ys, mas o mundo inteiro se conecta e procura pessoas com as quais se identificam. Basicamente pela Internet, depois, como todas as amizades bem sucedidas, podem ser combinados encontros sociais para sair do virtual.
    (alguém realmente acredita nisso?)

    O azul é a cor masculina, e é isto que representa os azuis na bandeira:
    (não precisam dizer mais nada.)

  3. Sobre questões de penetração, na hora do sexo considero relevante expressar o papel do dominante e do dominado. É claro que depende de cada um estar confortável com a posição que assume, mas todo mundo sabe que o sexo do homem é egoísta e particular, e que na hora do rala e rola quase não nos importamos com o conforto do outro. A minha masculinidade tem disso, foi configurada pra isso: batalhar para conquistar, ficar com a recompensa expressa na posição do submetido (e não to dizendo que o parceiro conquistado será necessariamente penetrável, ele pode ser penetrador…a questão trata-se de caçá-lo e colocá-lo ao meu comando, para o meu prazer exclusivo e pessoal. Se ele vai gostar ou não, daí são outras questões que podemos negociar, ou descartar para que cada um encontre a sua opção/posição/segurança ideal.) A penetração também é algo simbólico e importante para definir a diferença entre os G0Y’s dos demais se este for o caso. Eu faço parte dos demais, e considero o fato de montar o outro um ponto relevante da masculinidade. Também não me adequo aos padrões GAY’s, por não me considerar “happy” o suficiente para isso.

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