Uma conversa franca com gays invisíveis e incolores

Cartaz contra a propaganda anti-LGBT russa | Reprodução

“Conduza o mundo a uma era de orgulho”, diz o texto do cartaz contra a lei anti-LGBT russa | Reprodução

Há algumas semanas descobri que um colega é gay. Alguns de seus amigos heterossexuais já especulavam por algum tempo essa possibilidade, porém, nunca obtiveram qualquer prova sobre sua orientação sexual até que a verdade veio à tona em uma uma mesa de bar, durante uma conversa banal. O colega gay é jovem, instruído, bem sucedido em sua profissão e financeiramente independente. Não está preso por nenhuma das mais corriqueiras amarras que impedem, na atualidade, gays de revelarem seu segredo. “Por que ficar dentro do armário então?”, refletiram seus amigos. Medo de ser julgado? Vergonha de perder o ostentador título de macho?

Talvez o  jovem colega gay seja mais um que ignora a existência de uma relação de dominação – que diz que o correto e normal é ser heterossexual -, preferindo viver de maneira envergonhada e invisível sua sexualidade. Com tanta informação a nosso dispor, é uma pena que ainda presenciemos homens maduros levarem uma vida dupla, perdidos em um ciclo de opressão diário, “equilibrando-se entre o medo de ser visto, desmascarado, e o desejo de ser reconhecido pelos demais homossexuais”, como bem exemplifica Pierre Bourdieu em A Dominação Masculina, ao levantar questões sobre o movimento LGBT.

Uma das grandes indagações da invisibilidade gay é a ignorância sobre o que se é. Existe uma relação histórica de dominação masculina, que não apenas tornou a heterossexualidade a norma dominante nas sociedade, mas também, originou pesquisas e estudos com intuito de quebrar esse pressuposto, a Teoria Queer é um deles. O sociólogo norte-americano Steven Seidman, autor de livro Queer Theory/Sociology (1996), diz que Teoria Queer seria o estudo  “daqueles conhecimentos e daquelas práticas sociais que organizam a ‘sociedade’ como um todo, sexualizando – heterossexualizando ou homossexualizando – corpos, desejos atos, identidades, relações sociais, conhecimentos, cultura e instituições sociais”.

Antes da Teoria Queer, que surgiu nos anos 1990, “os estudos sobre minorias terminavam por manter e naturalizar a norma heterossexual”, segundo afirma o professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), Richard Miskolci, no artigo A Teoria Queer e a Sociologia: o desafio de uma analítica da normalização (2009). O status quo do gay moderno não é mais de anomalia, seja para as ciências humanas ou para as ciências biológicas, apenas a religião defende isso. Inventar desculpas para permanecer na invisibilidade é fazer a si mesmo uma vítima da opressão e é preciso acordar para essa realidade se a ideia é fazer um subversão dessa dominação.

Entretanto, sair do armário não é a solução para todos os problemas. Muitos gays estão fora do armário há anos, mas continuam agindo como se quisessem se encaixar na vida hétero, no modus heterossexista, através de dispositivos que reforçam a relação de dominação na constituição de valores morais e simbólicos. Há uma hoste que julga as relações homoafetivas com as mesmas medidas heterossexistas que diminuem o valor feminino, por exemplo. Uma mulher que tem muitos parceiros sexuais é puta, um gay que fizer o mesmo é o quê? Com certeza, não é o macho pegador. Existe um coro gay que dá a mesma resposta machista, como se nossa cultura fosse a mesma, como se gays não fosse algo diverso, colorido.

Tal como explica Bourdieu, não é necessário apenas uma ruptura simbólica desses valores, ou seja, não basta apenas mostrar que somos homossexuais, que existimos, pagamos nossos impostos e temos relações com pessoas do mesmo sexo, “o movimento [LGBT] tem que operar e impor uma transformação duradoura das categorias incorporada (dos esquemas de pensamento) que, através da educação, conferem uma realidade evidente, necessária, indiscutida, natural, nos limites de sua alçada de validade, às categorias sociais que elas produzem”. Em suma, é preciso levantar a bandeira colorida e fazê-la flamular para que possa ser avistada o mais longe possível.

Uma legião de gay incolores, que não se empenha na luta pela diversidade, está tomando as ruas e  as pistas de dança das boates. Vejo com certa tristeza gays criticando as paradas, sob argumentos de que tudo se tornou uma festa desnecessária, que não tem mensagem política alguma e só mostra que gays, lésbicas, travestis e transsexuais não se levam a sério. Ora, não sabem eles que exibir-se é um ato político e isso faz parte da subversão simbólica, que tem que ser permanente? O que eles esperavam? Discursos que tentassem convencer heterossexuais que ser homossexual é normal também? Precisamos parar as comparações e entender que a sexualidade nos torna diferentes em menor ou maior grau.

Minha intenção é exemplificar que falta vontade de conhecimento e dizer que sem as “cores”, talvez, os homossexuais não sairiam às ruas e muito menos seriam ouvidos e vistos manifestando sua cultura, porque sim, a homocultura existe e é diversa da cultura heterossexual. É triste admitir que muitos estão presos a uma nociva corrente de pensamento que tenta dizer que ser gay sem levantar bandeira, longe da homocultura, é mais legal, como se não houvesse tanto ainda a ser feito em favor da causa. Lutar contra esse pensamento “incolor” não significa, efetivamente, hastear uma bandeira colorida na porta de casa ou começar a dar pinta, se isso não faz parte de seu comportamento. Significa saber quem você é e sentir orgulho disso, porque um pouco de orgulho LGBT não faz mal a ninguém, homossexual ou não.

Quero terminar citando Eve K. Sedgwick, teórica norte-americana dos estudos queer, que nos lembra o drama bíblico da rainha Ester – que é parecido ao de muitos gays invisíveis e incolores – em A epistemologia do armário.  Ao contar a história de rainha judia que revela sua origem ao marido, o rei Assuero (Xerxes I) da Pérsia – que pretendia exterminar os judeus cativos em seu reino – Sedgwick nos faz entender que sair do armário é uma questão de sobrevivência pessoal e coletiva, mesmo nas diferentes esferas onde cada um se encontra. “O golpe peculiar que a estória  produz no coração é que a pequena capacidade individual de Ester, de arriscar a perda do amor  e do favor de seu senhor, tem o poder de salvar não só seu próprio espaço na vida, mas seu povo”, escreveu.

É possível que meu colega nunca leia esse texto ou nunca entenda que sua libertação representa mais um tijolo no muro de proteção dos direitos LGBT. Reafirmo que sair do armário tem um impacto positivo sobre a percepção da homossexualidade nas pessoas de nosso convívio. É preciso encorajar invisíveis a aparecerem, incolores a se pintarem e dizer-lhes que, com um pouco de luta, é possível viver como se quer viver, pois esconder-se não é o caminho.

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5 pensamentos sobre “Uma conversa franca com gays invisíveis e incolores

  1. Pingback: Uma conversa franca com gays invisíveis e incolores | Clipping LGBT

  2. Muito bom o texto, acabo de conhecer o blog e estou fascinado com tamanha identificação em diversas publicações, especialmente no que concerne agora a latente necessidade de invisibilidade de muitos de nós.
    Uma vez que, após diversos anos de sofrimento consegue-se o apoio familiar, e ainda assim o medo da exposição e os
    mais variados julgamentos e preconceitos
    impedem de simplesmente aceitar a
    homossexualidade

  3. Serviu, para mim. Especialmente a parte que diz “Muitos gays estão fora do armário há anos, mas continuam agindo como se quisessem se encaixar na vida hétero […]” Muitas vezes me pego tentando parecer menos gay e mais “aceitável”. Acho que sou teu fã, Fernando.

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