Como dizemos às crianças quem são os gays

Foto do filho de Philomena vestindo um macacão jeans | Reprodução

Foto do filho de Philomena vestindo um macacão jeans | Reprodução

Indicado ao Oscar de melhor filme, o longa metragem Philomena (Reino Unido, 2013), que conta a história de uma mulher que vai em busca do paradeiro de seu filho – décadas após eles terem sido separados -,  revela a sensibilidade que uma mãe pode ter quanto a sexualidade de um filho. Ao descobrir que seu Anthony era gay, Philomena – interpretada por Judi Dench – age naturalmente e diz que sempre soubera dessa realidade.

“Phil, como você sabia que ele era gay?”, pergunta o jornalista que acompanha a genitora na busca pelo filho. “Ele era um menino muito sensível. Quando os anos se passaram, eu sempre me perguntei se ele era [homossexual]. Quando eu vi a foto dele de macacão, não tive dúvida alguma”, responde a bem humorada Philomena, em uma atitude que chega a reforçar o ditado que diz que “mãe sempre sabe”.

Partindo dessa premissa de que os genitores conhecem seus filhos melhor do que qualquer pessoa, é importante questionar: por que alguns pais tornam tão difícil a saída do armário, quando na maioria das vezes já se tem conhecimento sobre a orientação sexual do filho ainda na infância? Se a mãe de um homossexual parar um pouco e pensar, é quase que certo que ela vá lembrar de algum episódio onde se perguntou a respeito da sexualidade do filho, mesmo que rapidamente. Entretanto, observando as respostas que alguns pais dão a suas crianças quando estão curiosas para saber o que significa ser gay, ainda se observa uma atitude opressora, que reproduz a heterossexualidade como norma, como se tornar a homossexualidade um assunto pejorativo livrasse um gay de seu destino.

“Homossexual é um homem que gosta de outro homem”, ouvi uma mãe explicando a seu filho que deveria ter uns 7 anos de idade e observei que nessa resposta, embora simples, não havia algumas palavras que podem definir melhor um relacionamento homoafetivo, como por exemplo: amor, casamento, família, direitos iguais. É bem verdade que ao explicar o que é ser gay usando essas palavras, alguns pais temem estar, de certa forma, legitimando a homossexualidade para seus filhos, tornando claro de que é possível ser gay e não é tão ruim assim. Então, quanto menos se souber que não há nada de errado em “gostar” de uma pessoa do mesmo sexo, melhor.

“Acontece que ‘ser gay’ nunca foi um projeto social de um pai para seus filhos”, escreveu o pesquisador do departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Jo Fagner, no artigo O Segredo e a Luzsobre natureza do armário e a relação do homossexual consigo mesmo e seu meio social, contemplando o viés da opressão familiar. “Ao invés de se educar para a diversidade, modelos impregnados como probabilidades únicas de se reconhecer ‘gay’ persistem”, ressalta o pesquisador com sabedoria no resgate dos processos que definem “coisa de homem” e “coisa de mulher”, ao qual estamos expostos desde o momento do nosso nascimento e que, falsamente, parecem preencher  as lacunas da nossa sexualidade.

Isso posto, o que se deve responder a uma criança que pergunta o que é ser gay, sem reforçar preconceitos e, principalmente, sem oprimi-la dentro daquilo que pode ser sua realidade futura? Enquanto ainda não tivermos uma política de governo esclarecedora para o ensino do respeito à diversidade nas escolas, teremos crianças que ouvirão muitas respostas diferentes em casa ou nas ruas. Um retomada no projeto Escola Sem Homofobia – o do Kit Gay – seria uma passo significativo para ajudar famílias a vencerem as barreiras da ignorância dentro de nosso país, mas enquanto ele está parado, temos que buscar outros rumos para acabar com a cultura das respostas obscuras e descriminatórias.

“Não precisa elaborar uma historinha sem pé nem cabeça para justificar algo. Basta responder com naturalidade, falando sempre a verdade. A criança se contenta e o pai, que é figura de referência, não vai precisar mentir”, diz a psicóloga Luzimari Dantas, do Hapvida Saúde Maceió – especializada em psicologia infantil -, que orienta pais e adultos em geral a limitar-se a responder o que foi perguntado. “Fugir da resposta também não é alternativa. Quando os pais dão atenção e importância aos questionamentos, conquistam uma relação saudável com o filho, de abertura, de confiança, que pode ser benéfica no futuro”. Dantas observa ainda que os pais tem a tendência de repassar para os filhos a sua visão sobre a homossexualidade, estabelecendo um juízo de valor que pode ser perigoso.

“É preciso tentar resolver, inicialmente, a situação dentro de si. Se o pai encara com preconceito, numa ideia pré-concebida, a criança também vai encarar dessa maneira. O melhor jeito de informar quem são os gays é mostrando que são pessoas iguais a quaisquer outras, mas que se relacionam afetivamente com outra do mesmo sexo. Mostre que é importante respeitar – não por ser gay, mas apenas por ser uma pessoa – e que existem consequências para atitudes erradas e maldosas contra eles. Dê prioridade também a chamá-los de homossexuais, gay, lésbica ou comunidade LGBT e não por termos pejorativos, como ‘viado’, ‘bicha’ ou ‘sapatão’”, explica a psicóloga.

O vídeo abaixo mostra a reação de crianças americanas  diante do casamento gay:

As vezes, o adulto vai perceber que a criança pode reagir de forma preconceituosa à explicação, como no vídeo do Kids React acima, que aborda a temática da homossexualidade (Kids React to Gay Marriage). No episódio, um garoto de 5 anos tem uma atitude completamente contrária em relação aos demais sobre o casamento gay. Enquanto crianças com idades entre 5 e 13 anos dão opiniões favoráveis, o garotinho continua a dizer que ser gay é ruim, o que obviamente não é fruto de sua percepção e observação da realidade, mas sim, da cópia de um comportamento homofóbico próximo. “Geralmente, a homofobia infantil está associada à imitação, à ação discriminatória de um ou dos dois pais”, conclui Dantas.

A psicóloga nos ajuda a entender que assim como educamos as crianças para serem cidadãos honestos com nosso exemplo, também a educamos para serem criaturas homofóbicas que não conseguem lidar com as diferenças, e pior, acabam sendo vítimas diretas dos próprios pais quando se descobre que sua sexualidade não é a esperada. Parece bobagem, porem até mesmo contar piadas que ridicularizam hábitos gays, faz com que crianças criem parâmetros que rebaixam a condição homossexual. Não são apenas as palavras ditas à elas, todo nosso comportamento responde, o exemplo arrasta.

Uma colega de trabalho me conta com regularidade como seu filho de oito anos faz perguntas sobre todo o tipo de coisa. Questionei se ele, alguma vez, já teria perguntado o que é ser gay, ao que ela respondeu que ainda não. “Mas eu gostaria de saber como devo responder a esse tipo de pergunta”, disse. Bem, acho que esse artigo pode esclarecer um pouco essa questão. Entretanto, penso que o problema é que existem muitos adultos que precisam ser educados sobre o assunto tanto ou mais que as crianças. Só assim poderemos esperar o dia em que todos possam agir como a mesma naturalidade de Philomena, ao falar sobre o tema e ao descobrir que seus filhos são homossexuais.

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