Por que esperávamos mais de Looking?

Cartaz de promoção da primeira temporada de Looking | Divulgação HBO

Cartaz de promoção da primeira temporada de Looking | Divulgação HBO

A série Looking está reavivando na comunidade LGBT uma discussão que está longe de ter o seu desfecho, principalmente, uma definição que se adeque as vontades e as bandeiras quando o assunto é o tipo de gay que se quer ver nas produções televisas. Exibida aos domingos no canal HBO, o seriado americano que estreou em janeiro deste ano teve seu season finale da primeira temporada no último dia 10, confirmando que a produção, após oito episódios, é quase um romance de Amanda Grís, ou seja, um romance “cor de rosa” na versão gay.

Amanda Gris é o pseudônimo da personagem principal do filme A Flor do Meu Segredo (1996), do diretor espanhol Pedro Almodóvar, uma escritora que está obrigada por contrato a entregar a sua editora cinco histórias por ano contendo “romances de amor e luxo em cenários cosmopolitas, sexo alusivo, desportos de inverno, sol brilhante, subúrbios, yuppies [jovem profissional urbano], nada de política, ausência de consciência social, filhos ilegítimos e claro, finais felizes”.  E não é este o cenário de Looking? A vida de três personagens gays lidando com os problemas da vida profissional e sentimental em São Francisco (Califórnia, EUA), sem militar, sem questionar e sem chocar?

No Facebook as discussões se acaloram e as opiniões se dividem sobre o papel da série, alguns estão satisfeitos, outros esperavam mais. O gay “limpinho” que aparece em Looking é uma realidade atual do que é ser gay nos países ocidentais ou o seriado está produzindo mais gays para héteros verem na televisão?  “Existem gays de vários tipos, inclusive como os de Looking”, me disse um amigo quando observei pela primeira vez a tendência da série de seguir a linha cor de rosa. E ele está certo e não há problema algum nisso. Mas se a discussão existe é porque a satisfação da representação gay televisiva ainda não foi alcançada em sua plenitude.

Talvez esta representação tenha quase atingido seu ápice no início dos anos 2000 com a série Queer As Folk, onde 10 personagens homossexuais faziam uma exploração contínua no campo da diversidade. Contudo, na época alguns gays diziam não se identificar com os personagens que viviam a plenitude de sua sexualidade, militavam e questionavam valores heterossexistas que não se adequavam as vivências LGBT.

Quase dez anos se passaram e a geração que entra na discussão no Facebook é outra e não mais a geração que estava distante da possibilidade de nunca ver um beijo gay no horário nobre da TV brasileira. Não é mais a geração que tem que colocar na agenda política a união civil entre pessoas dos mesmo sexo e não é mais a geração que precisa mostrar aos hetrossexuais como vivem os gays. Ao que parece, as preocupações dessa geração estão ligadas à heteronormatividade, em não ser diferentes, porque – de alguma maneira equivocada – ela ainda está entendendo o gay como uma variação do hétero e não como uma condição igualitária, porém insociável dentro do campo da construção das sexualidades.

Não há problema em gays gostarem de ver histórias gays “cor de rosa”, o problema está em aceitar essas histórias como realidade consumada, em oposição a um trabalho que já conseguiu posicionar a homossexualidade em um ponto distante de uma fisiologia misteriosa. Foucault nos lembra que nada daquilo que o homossexual é, no fim das contas, escapa a sua sexualidade. “Ela está presente nele todo: subjacente a todas as suas condutas, já que ela é o princípio insidioso e infinitamente ativo das mesmas”, observou o filósofo sobre o comportamento gay em História da Sexualidade.

Comentários de usuários do Facebook em uma das postagens sobre Looking | Reprodução

Comentários de usuários do Facebook em uma das postagens sobre Looking | Reprodução

O produto do choque entre defensores e contrários ao conceito dos gays apresentados em Looking  vai muito além da representação cognitiva e se espalha pela seara dos valores. Será que podemos continuar julgando as relações de homossociabilidade pelos parâmetros valorais heterossexistas que têm nos oprimido ao longo do séculos, como o da família monogâmica, por exemplo? Ou está na hora de começarmos a construir e massificar valores que digam mais sobre nossas vontades e sobre nossas perspectivas sociais, que nem sempre são as mesmas dos héteros?

Não há dúvidas que se esperava mais da série nesse sentido de construção de identidade de valores próprios da comunidade LGBT, porque isso sim seria um avanço, uma nova bandeira dentro do movimento. Porém para nós, brasileiros, que vivemos em um país onde o povo tem uma certa apatia à discussão política, não é de ser surpreender que uma história com ausência de consciência social caia no gosto da geração que não precisa iniciar nenhuma luta, porque quase tudo está posto.

A série é boa, o texto é bom e os personagens apresentam alguma complexidade relevante dentro do seu enredo “morno” – como classificou um dos participantes das discussões no Facebook. Todavia, é importante lembrar que Looking é um produto comercial feito para gerar lucro dentro da indústria que mais  tem crescido nos últimos anos,  inclusive no Brasil, a de seriados americanos. Por isso faz-se importante entender Looking como produto da indústria cultural e não uma representação fiel à realidade.

Jonathan Groff é lindo e carismático e seu personagem no show, Patrick, é deliciosamente confuso. Uma velha fórmula para o sucesso de romance cor de rosa? Bom, parece que sim. Resta aguardar a estreia da próxima temporada, que já foi confirmada, e ver se é possível que a comunidade encontre em Looking aquilo que se  tem procurado sobre os gays na mídia, sem sucesso, nos últimos anos.

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2 pensamentos sobre “Por que esperávamos mais de Looking?

  1. Cada um terá uma opinião diferente. E é isso que torna a discussão legal. A série relata realidades de vidas e personalidades diferentes e não precisa ser necessariamente a sua!

  2. Pelo que entendi de algumas partes do texto, a série só seria “completa” se mostrasse as personagens de uma maneira tida por alguns como “ousada”, que saísse do viés namoro romântico com apenas uma pessoa por vez, com homens cultos, que não têm trejeitos femininos, etc… É isso? Inclusive li num comentário sobre uma crítica à série de que aparecer eles fumando maconha num dos episódios foi muito pouco. Eu pelo contrário, adoraria que pelo menos uma produção que demonstra o universo da homossexualidade não exibisse o consumo de drogas ou pelo menos não de maneira excessiva. Não concordo com o que foi dito de “criar” uma identidade própria para os LGBTs, afinal quem está inserido nesta sigla pode ter como semelhança a orientação sexual e a identidade de gênero, mas têm características diferentes. Eu gostei da série como um todo e entendi que a ideia de quem a criou foi mostrar os gays numa sociedade mais inclusiva em que possam levar suas vidas, mesmo que chatas na boa, fugindo um pouco da necessidade de enfrentamento da discriminação. O que de certa forma é uma grande realidade para quem mora na cidade onde ela se passa.

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