Um mês depois, quem “virou” gay?

Primeiro beijo gay da TV brasileira O esperado beijo gay entre as personagens Marcela (Luciana Vendramini) e Mariana (Giselle Tigre) | Reprodução SBT

Primeiro beijo gay da TV brasileira, protagonizado pelas personagens Marcela (Luciana Vendramini) e Mariana (Giselle Tigre) na novela Amor e Reolução do SBT | Reprodução SBT

Um mês se passou desde que o personagem Félix, interpretado por Mateus Solano, beijou seu marido Niko, vivido por Thiago Fragoso, no último capítulo da novela Amor à Vida. O Brasil parou em 31 de janeiro para ver o beijo de Félix e Niko e, durante muitos dias após a cena, a pessoas comentavam nas rede sociais e filas sobre o primeiro beijo entre dois homens na televisão brasileira. A novela de autoria de Walcyr Carrasco foi exibida na Rede Globo, emissora tida como “inimiga” da população LGBT por mostrar personagens homossexuais que não se assemelham com a realidade dos gays, lésbicas e transgêneros brasileiros. 

Uma parcela pessimista dizia que o povo brasileiro não estava preparado para ver o amor de dois homens ser manifestado através de um simples beijo, quando o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) havia aprovado em maio de 2013 uma resolução que obriga os cartórios de todo o país a celebrar o casamento civil, convertendo a união estável homoafetiva em casamento. Outra parte mais radical, formada pela parcela evangélica da população, se valendo de argumentos fundamentalistas, dizia que dois homens se beijando na TV iria “ensinar” os jovens a serem gays, mostrando a homossexualidade como uma coisa natural. No frigir dos ovos, nenhum dos lados estava correto.

Embora saibamos a influência das telenovelas na opinião e nas relações de consumo do povo brasileiro, os posicionamentos acima se revelaram completamente equivocados em, primeiro, formular um juízo de valor a respeito da capacidade inteligível dos brasileiros de compreender a exposição de uma relação homoafetiva e, segundo, de entender, de uma vez por todas, que a homossexualidade não é uma opção. Duas hipóteses desprovidas de qualquer base científica ou pesquisa. Porque os brasileiros não estariam preparados para ver mais um beijo gay?

“A leitura que a família faz da telenovela é uma experiência cultural ativa e complexa, sujeita a uma série de disposições culturais habilitadas, produto tanto do habitus de cada família, quanto da trajetória específica de seus membros” (grifo do autor), escrevem as pesquisadoras de Vivendo com a telenovela: mediações, recepções e ficcionalidade* a cerca da diversificação de experiências sobre o que é absorvido do conteúdo novelístico e refletido na realidade dos lares. Para as autoras, esta leitura está diretamente relacionada as interações com o espaço, o tempo e a competência cultural de cada família.

Generalizar a respeito de resultante de uma cena tão simplória, como um beijo, é um erro e os fatos por si só mostram isso. Quanto homens ou mulheres, que se tem notícia, “viraram” gay por causa do beijo do Félix? É certo que neste curto espaço de tempo alguma pessoas tenham deixado o armário, talvez, conduzidas pela movimentação a em torno do assunto, o que é um ponto positivo, já que estamos em uma democracia que garante a liberdade de expressão individual. Dizer que o povo não está preparado é negar que estamos lidando com a homossexualidade pública há muitas décadas.

As propositivas a que se apegaram os opositores do beijo gay na TV aberta revelam, para mim, pelo menos três aspectos importantes sobre a reação diante da homossexualidade, que gostaria de ilustrar com exemplos pessoais sobre minha saída do armário de como se dão as relações da ignorância no tocante à assunto.

Crenças criam uma cortinas de ferro

Uma amiga que conheci enquanto realizava um trabalho voluntário religioso, certo dia me enviou uma mensagem no Facebook perguntando: “Nunes, você virou gay?”. Segundo ela, a indagação veio a partir do grande número de postagens minhas que faziam referência ao casamento igualitário e as relações homoafetivas em geral. Tentei lhe explicar que não havia virado gay, que isso não acontece como algo que se aprende em um centro de treinamento técnico. Ela pareceu não entender e encerrou a conversa dizendo: “Não sei o que está acontecendo, recentemente, muitos dos meus amigos estão virando gays”. Dentro das perspectivas religiosas dela, um mal inexplicável estava se propagando e suas crenças a impediam de enxergar as transformações que a sociedade brasileira vem passando ao longo dos últimos em relação aos homossexuais. Mesmo com muitos  amigos “virando” gays, ela não havia ainda parado para compreendê-los e continuava a achar aquilo o fim do do mundo.

A ignorância gera perguntas que precisam ser respondidas de forma correta

Embora, aparentemente, as pessoas pareçam saber o que “são” os gays, o nível de ignorância em relação ao assunto ainda é elevadíssimo e há muitas perguntas simples, que podem ser respondidas por gays questionados que não sabem o que dizer. Quando contei a uma amiga da época de colégio sobre minha condição sexual enquanto estávamos em uma loja, ela ficou calada. Passeou  um pouco entre as roupas e, finalmente, me olhou e perguntou: “Agora você não vai se vestir de mulher não, né?”. A falta de educação sobre a diversidade sexual e de gênero conduz a esse tipo de questionamento, o que poderia ser resolvido com informação acessível na escola, por exemplo, com o uso do polêmico Kit Gay. Não teríamos uma massa de jovens e adultos que não conseguem encaixar seus apetites e sentimentos em uma das letras do quarteto LGBT e ainda, não teríamos heterossexuais que acham homossexuais criaturas anômalas.

A experiência de convívio permite o conhecimento

Por fim, ao sair do armário para uma amiga de muitos anos, que me amava como um filho, ela não me fez nenhuma pergunta, exceto a se certificar de que eu estava feliz. Sei que ela não entendeu bem ou mesmo aceitou com naturalidade o fato de eu ser homossexual, mas o sentimento que tínhamos um pelo outro, as experiências que compartilhamos foram o suficiente para manter o laço de nossa amizade estreito. Segundo a tese de Milk, o conhecimento traz a aceitação e a ignorância gera a repulsa gay. Ela já me conhecia muito bem  – talvez até desconfiasse de minha homossexualidade -, ser gay era apenas mais uma coisa ao meu respeito entre tantas outras. Quem ama para para entender, se não houver cortina e abismos de ignorância.

O que podemos esperar é que aquele beijo não tenha sido um ato isolado, uma coisa de ímpeto que não vá re repetir em outras tramas e outras emissoras, como aconteceu com o SBT ao mostrar o primeiro beijo homossexual, protagonizado por duas mulheres na novela Amor e Rovolução em 2011. Não houve alvoroço, ninguém virou lésbica por ver duas mulheres se beijarem. E isso quase três anos antes do beijo na Globo. Beijos e outras aspectos dos relacionamentos homoafetivos expostos na TV aberta brasileira seriam uma grande ferramenta de educação – abordados de forma correta – para acabar com esse argumento falso de que não estamos preparados.

_

*LOPES, Maria Immacolata Vassallo de. Vivendo com a telenovela: mediações, recepção, teleficcionalidade, BORRELLI, Silvia Helena Simões, RESENDE, Vera da Rocha, São Paulo, Summus, 2002.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s