Sem dor, viveremos mais

Publicação de João no grupo LGBT Brasil no Facebook | Reprodução

Publicação de João no grupo LGBT Brasil no Facebook | Reprodução

Um estudo feito por pesquisadores da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, descobriu que gays, lésbicas e bissexuais (LGB) que vivem em comunidades com altos níveis de preconceito têm uma expectativa de vida mais curta. O estudo, divulgado neste mês de fevereiro, mostra que membros da comunidade LGB vivem em média 12 anos a menos em localidades de preconceito elevado, em comparação a companheiros que vivem em comunidades menos preconceituosas. 

Para jovens que estão na pior fase da vida homossexual – o processo de se entender e sair do armário -, este estudo corrobora para constatação do enorme dano que o preconceito causa a médio e longo prazo em pessoas que estão apenas querendo viver sua vida e sua sexualidade livremente. A dor, o sofrimento, a dúvida e a vergonha, que se acumulam com pequenas piadas, palavras e gestos durante os anos podem levar a morte, seja por doenças cardiovasculares ou ate mesmo, o suicídio.

Apesar de todo o sofrimento que uma jovem homossexual prestes a assumir-se enfrenta, as doenças do coração não mata mais do que a doença que é o preconceito. A pesquisa mostrou que a mortes por homicídio e suicídio, são as principais responsáveis pela redução da expectativa de vida em homossexuais cercados por preconceito. 

Para ler mais sobre o estudo (LGB Individuals Living in Anti-Gay Communities Die Early) clique aqui.

Os dados divulgados pelos cientistas da Escola de Saúde Pública de Mailman, da Universidade de Colúmbia, podem ser constatados em muitos lugares e situações ao nosso redor. Basta parar um pouco e observar as redes sociais, que encontraremos muitas gritos vindos de armários escuros e claustrofóbicos.

Recentemente, me deparei com este depoimento de um jovem, no Facebook, cheio da carga emocional: “Hoje ponho fim a 23 anos de medo e de mentiras. Hoje me liberto do INFERNO em vida que vivi durante todo esse tempo. Chega de me sentir inferior a outros de minha família e da sociedade como um todo”, escreveu João Miguel Costa em um grupo aberto na rede social, ao anunciar que tornaria sua homossexualidade pública.

Eu acabara de ler o artigo sobre estudo e a postagem de joão, me chamou atenção por trazer para nosso cotidiano o que um cientista PhD em ciência sócio-médicas comprovara depois de anos de observação: o preconceito mata de diversas formas. O dano pode ocorrer na fase madura da vida ou ainda na juventude, como no caso deste jovem, que vivem em Goiânia-GO, e compartilhou um pouco de sua história comigo.

João é um trabalhador autônimo que tentou suicídio três vezes, ainda na adolescência. Um das tentativas aconteceu após ser agredido e ameaçado por valentão, que mobilizou a escola inteira para descriminá-lo. “Eu era xingado e humilhado por pessoas que nunca havia visto na vida”, recorda o jovem que à época tinha 16 anos e podia ter se privado de um futuro maravilhoso por causa do ódio gratuito.

O rapaz mora com a mãe, a quem contou há três anos sobre sua condição sexual. Ela que sempre o apoiou durante os anos conturbados da adolescência e as tentativas de suicídio – sem fazer muitos questionamentos -, manteve a mesma atitude positiva ao saber quem realmente era o filho. Tinha 20 anos quando começou a ver sua vida mudar, após sair do armário para a mãe, teve coragem para se relacionar melhor com outros homens e pode ter tranquilidade para iniciar sua vida sexual.

“Refleti muito sobre o que passei. Fiquei revoltado com comentários da minha tia que vivia a me espezinhar, me jogando indiretas, dizendo que casais gays eram anormais. Me sentia mal, uma aberração. Me sentia o mais infeliz dos homens”, disse sobre a dor que impulsionou sua saída do armário.

Em minha conversa muito honesta com João, perguntei o que ele diria a um jovem que, assim como ele, está passando por esses momentos difíceis. De forma simples, ele respondeu: “Que não esperem tanto tempo quanto eu esperei. Que acordem e não cometam os mesmos erros que cometi e que se amem em primeiro lugar”.

Não posso prever com que intensidade essas palavra podem trazer alento a quem está perdido no escuro do armário, mas mesmo fora dele há algum tempo, me sinto feliz de um dia ter feito a escolha que joão fez ao dizer: “Não vou fugir de meu destino, enfrentarei o mundo para ser o que jamais fui, FELIZ”.

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