Procura-se um ‘viado’ comum – Parte III

[Leia também Procura-se um ‘viado’ comum – Parte II]

O Marcelo era quase isso. Talvez não.

Caso Marcelo: bonito, carente, passivão e acima do peso.

Eu deveria ter me apaixonado por Marcelo em nossa primeira e única foda, mas naquela ocasião eu já fiquei de saco cheio com as colocações dele do tipo: “Eu não sou um pedaço de carne”, “Não quero que seja algo rápido. Tem que rolar carinho, porque eu não sou uma prostituta”.

Ok!

Eu entendia que ele não era uma prostituta, muito menos um pedaço de carne – porque se o fosse eu não comeria com aquela capa de gordura –, mas isso não significava que entre nós deveria rolar todo o afeto do mundo. Definitivamente, aquilo não era uma imposição com sentido.

Já estive com caras com os quais toda a intimidade aconteceu naturalmente e depois nunca mais vi, entretanto, não precisamos pré-estabelecer que seria assim antes de tirarmos as roupa. A coisa toda apenas se deu.

Marcelo era inteligente e muito bonito, além do mais, tinha um bom emprego, viatura – carro –, morava sozinho – tinha local –, e demonstrava ser um tanto quanto sentimental. Daquele tipo de pessoa que sofre de “amor a primeira gozada” e isso é problema sem fim. Digo por experiência própria.

Quando cheguei à sua casa, estava com o pensamento positivo que de que o sexo pudesse ser algo extremamente prazeroso e eu pudesse esquecer as impressões negativas, que ele havia me dado em nossas conversas por telefone e no Skype. O fato, é que ele me ensinou a acreditar nas primeiras impressões online.

Embora eu tenha sido carinhoso com ele o tempo todo, seu papo chato e sua insistência em querer praticar seu inglês comigo, só porque eu lhe dissera que era fluente na língua, quase me fizeram brochar. Mas eu mantive minha dignidade, se é que ainda tinha alguma até aquele ponto.

Transamos e ele passou aquele cheque. E eu juro que não foi por causa disso que eu não quis mais vê-lo. Passar cheque é da vida. Quem nunca passou que atire a primeira pedra. Porém, mais uma vez eu tive que dizer para mim mesmo que deveria ter acreditado em minhas impressões online.

Quando se sente que o boy não é bom, é porque ele não é mesmo.

Obviamente, não gozei depois do cheque e de tentar comer o cu dele com gel de cabelo. Após uns dez minutos de penetração, ele começou a reclamar que estava ardendo, a brincadeira parou e eu fiquei meia bomba.

– Eu bem que avisei que deveríamos ter usado o lubrificante mais tradicional de todos – falei com uma ironia de quem queria dar uma tapa. – O cuspe – completei cuspindo um pouco na minha mão e esfregando no meu pau, mas já era tarde.

Já não havia mais clima para continuar, o incômodo, o cheque, o cheiro, o gel de cabelo, a inércia dele na cama, o silêncio. Tudo estava me irritando e amolecendo meu pau de um jeito que eu queria sair dali pela janela, que oferecia uma vista linda.

Quando saí pela porta de seu apartamento – às duas da manhã – sabia que ali não voltaria.

Não sei explicar muito bem, Marcelo parecia ser um cara bom, contudo nada do que aconteceu enquanto eu estive lá me deixou com vontade de descobrir mais sobre ele. E eu penso que talvez o mesmo tenha se passado com Tiago e Samuel.

Talvez eu não seja capaz de afirmar, mesmo que generalizando, que as relações heterossexuais são menos complicadas do que as homossexuais, mas eu só queria encontrar um ‘viado’ comum, sem precisar fazer tantas considerações sobre sua personalidade, antes de conhecê-la de verdade.

Alguém que não queira apenas foder com tudo e com todos como uma máquina, uma matriz reprodutora. Que não ache que ficar “colocado” é a melhor coisa depois que inventaram a roda e, principalmente, que não seja um poço de sentimentalismo como uma mulher na TPM.

Acho, na verdade, que minhas amigas estão certas em se iludir e achar que o cara vai ligar no dia seguinte. É melhor assim, achar que nem tudo é passageiro e que há esperança em uma simples chamada. Dói menos, não é?

Não faz mal um homem – hétero ou não – que ligue no dia seguinte. Que lhe mande uma mensagem e ou lhe diga “bom dia” no What’s App antes de você acordar. Ao invés disso, eu só tenho encontrado corpos, que pensam que músculos definidos são qualidades tão importantes para o caráter como honestidade.

Onde estão os viados comuns ou nos tornamos uma raça mutante? Porque tudo o que vejo é uma confusão de sentimentos e valores, onde vence quem tem o bíceps maior ou melhor te conduz você e “Vera” dentro do  “Buraco da Keyla”.

Volto a prestar atenção na conversa das colegas.

Logo corto uma delas no meio de uma explicação desinteressante sobre a natureza masculina e jogo na roda o sorriso safado do novo gerente de marketing. A colega, antes chorosa, ri e isso parece me fazer entender que a procura nunca acaba.

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Um pensamento sobre “Procura-se um ‘viado’ comum – Parte III

  1. Oi, Fernando!
    Li as três partes da sua saga-da-vida-comum e gostei muito 🙂 O ritmo da sua escrita é ótimo – prezo por demais isso – e a sua história tem um pouco a ver com a história de todo gay médio que tenta sobreviver em meio a um mar de incertezas sobre nossa própria condição afetiva no dia a dia. Li também a crônica sobre o mictório, que reafirmou minha vontade de ler mais. Não é como se fosse putaria deliberada ou aqueles textos eróticos cafonas de quem se alfabetizou sexualmente nas crônicas da Ti-ti-ti ou da Ana Maria. Enfim, eu fico com a impressão de que estamos todos nós por aí, espalhados, tentando não ficar com raiva de tudo ao ter de desbravar corpos e histórias que nem conhecemos direito. Despir-se – não só literalmente – é também um dos últimos bastiões desse jogo duro (e solitário) que é o contato.

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