A melhor lembrança do primeiro

Eu tinha dezesseis anos e estava prestes a completar dezessete, dali a duas semanas, quando o conheci. Os olhos de Gustavo eram verdes como o mar de Pajuçara quando a maré está baixa. Tinha um sorriso lindo e a pele branca, coberta de pelos dourados e perfumados por Galbe.

Apaixonei-me por ele no instante em que o vi subindo as escadas rolantes daquele velho shopping que mudou de nome, mas que todo mundo continua chamando pelo nome antigo. Gustavo vestia uma camisa pólo vermelha, segurava uma pasta de plástico – artefato escolar comum no início dos anos 2000 – e trazia um boné na cabeça, para esconder a calvice que comecara.

Eu ia pegar um garoto que fazia faculdade e não havia nem terminado o colégio. Essa ideia me divertia. A ele, claro, menti minha idade e disse que tinha experiência de sobra, porque não queria, na verdade, dizer que nunca havia estado com nenhum outro homem antes.

Meu coração bateu acelerado quando percebi, do topo da escada, que um rapaz de camisa vermelha e boné se aproximava. Era ele, que de imediato me olhou e jogou em mim seu olhar de maré baixa. Sim, de oceano sem ondas, com uma brisa de temperatura mista, entre o fresco e morno.

Seu beijo ainda me traz à memória o gosto da menta fresca misturado ao juá. Porém, nenhuma outra recordação arrebenta tão forte em minha memória como o leve ardor de sua barba em meu rosto. Depois daquele longo beijo, onde senti toda sua língua dentro da minha boca e sua excitação tocando meu corpo.

Nunca quis que aquele momento acabasse. Mesmo já tendo se passado mais dez anos, continuo querendo ter essa mesma sensação, que se repetiu de maneira semelhante com outros homens.

Se fecho os olhos quando estou quieto em minha cama, no escuro, o sabor da menta fresca e do juá em sua língua ainda está lá, em algum lugar em minha língua. Sinto depois, quando seu rosto se afasta do meu, minha pele arder.

Em minha lembrança, sei que ele me beijou.

Muitos anos depois, no meio da noite, ainda acordo com essa sensação:

Meu amor tinha barba

Disso eu me lembro muito bem

Quando perto de mim ele chagava

O contraste em sua pele clara

Do castanho e cores além

Meu amor tinha barba

E costumava me beijar

Arranhar meu corpo todo

Meio sem jeito, meio devagar

Meu amor tinha barba

E quisera que ainda aqui estivesse

Com seus pelos perfumados

Combinado a cabelos anelados

Cuja lembrança me entristece

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Um pensamento sobre “A melhor lembrança do primeiro

  1. Gostei do conto. Gosto do erótico apaixonado. Não me amarro em erotismo sem um deslumbre, sem um sonhar.
    Tua narrativa ficou bastante condutiva e o poema fechou com chave de ouro.

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