Mictório: um templo gay

Eu não sei o nome dele, porque nas únicas duas vezes que nos encontramos tudo aconteceu muito rápido, uma delas, dentro daquele banheiro. A última coisa que me ocorreu foi perguntar qual era seu nome. O que menos me interessava diante de sua excitação e minha adrenalina, saber como ele se chamava.

Ela estava usando a farda de uma empresa de TV a cabo e banda larga, ironicamente, a mesma que sou cliente há alguns meses. Contudo, minha mudança para a empresa não tem nada a ver com o rapaz ou ainda com aquele encontro rápido no mictório do banheiro de um supermercado. Eu mudei para empresa do garoto para encontrar alguma satisfação dentro das minhas decepções na internet.

É preciso dizer que eu acho que em nenhum outro lugar, dentro das sociedades modernas, os indivíduos do sexo masculino compartilham sua intimidade tão livremente com desconhecidos como acontece ao se fazer uso de um mictório coletivo. Ali, com divisórias que os separem ou não, homens em pé cumprem um dos rituais mais antigos do gênero humano, o da micção.

A primeira vez que o vi estava, por acaso, no banheiro do térreo daquele supermercado dos americanos. Logo notei as letras laranja da logo da empresa nas costas dele, seu corpo magro, os cabelos pretos, lisos, a pele branca e sua altura – o que me atraiu de imediato. Resolvi usar o mictório ao seu lado e me surpreendi com o que vi.

Há algo místico no ato de manusear o órgão que concentra toda energia sexual masculina, em uma ação que está quase que completamente desligada do sexo – salvo no caso de fetiches, como na execução da bem conhecida “chuva dourada”. Este misticismo vem de sua contemplação, da energia que se ente ao visualizar o que vi, quando cuidadosamente olhei para o meu lado esquerdo.

O mictório é para os gays um santuário sagrado de observação, que se dá em uma cerimônia rápida, calma e de empatia moderada entre os participantes, que se enfileiram lado a lado em resposta a um chamado fisiológico. É o local, longe do sexo, onde se pode chegar perto do órgão sexual masculino alheio – o dele, para minha surpresa, estava ereto – sem a reserva da rejeição, porque nesse santuário todos são neutros até se haja ao contrário.

O tal rito da micção, que se inicia com o posicionamento no local coletivo, exponde os órgãos genitais diretamente ao olhar dos semelhantes e, às vezes, o escondendo de maneira fulgás por trás de uma pedra de mármore ou granito, tinha começado para mim. Para ele, talvez nem tivesse acontecido.

Não há homem que nunca, uma vez no mictório, mesmo imerso no seu próprio ritual, não tenha observado, ainda que discretamente, o falo do companheiro que está ao seu lado, seja por um movimento involuntário, seja pela curiosidade natural das comparações de tamanho e espessura. E pau dele era grande, grosso. Daqueles que são inacreditavelmente grossos na base e vão diminuindo de espessura na direção da glande.

Por uns cinco segundos eu fiquei hipnotizado enquanto ele o balançava para mim, olhavando de maneira fixa para a parede de azulejo branco a sua frente.

Me lancei no fascínio de observar o pênis, ato típico homossexual, legítimo e irrefutável. Porque nesse “templo”, que é o mictório, o pênis é um deus e quem o observa é um fiel que acredita, com todas as forças, no prazer que ele pode proporcionar.

Dentro daquele ritual, a mão dele puxou para trás a pele do prepúcio, permitindo que a glande pudesse ficar de fora. Portanto ela não era circuncidado,  o que representa muito dentro desse universo, já que o descer da pele é um movimento a mais de exibição.

As cores, as formas, tudo ficou exposto na verdade da ereção, que os gays  – em geral – sabem admirar.

Permanecemos em silêncio absoluto, sendo quebrado apenas por alguns arquejos de alívio, relaxamento ou preocupação de que um outro cara entrasse repentinamente no banheiro. Estávamos no êxtase daquela dança de flamingos,  onde o macho e fêmea movem as cabeças para o lado fazendo sons engraçados.

Eu estendi a mão e segurei o seu pênis, que estava quente, coberto por uma rosado que me dava uma vontade imensa de colocá-lo na boca. Porém, a lembrança de que aquele era um lugar tanto de heterossexuais como de homossexuais me impedia.

Mesmo que nós estivéssemos comungando do mesmo espírito do ‘momento macho’ ali dentro, se fazia tudo tudo para evitar o outro homem por causa do medo de ser surpreendido e a diversão virar uma vergonha pública.

Não é exagero dizer que a coisa toda é mais pelo perigo de acariciar um desconhecido em um lugar público de que, de fato, por a mão em mais um pau entre muitos que já se colocou a mão na vida. Não posso explicar bem qual é a sensação, mas é boa, é viciante, de um jeito que uma vez basta para se querer outras.

Por afobamento, talvez, perguntei o nome dele e pedi o seu número de telefone, motivado pela beleza de seu falo. Ele respondeu, sussurrando, que era melhor não, porque ele “curtia na baixa” e não queria correr nenhum tipo de risco.

Pronto.

A grande verdade sobre o “templo” é que os donos dos deuses são medrosos, casados, mal resolvidos, estão dentro do armário e, ainda por cima, apresentam muitas perversões sem explicações, tais como, oferecer seus pênis a bocas desconhecidas.

O sons de passos na entrada do banheiro pôs fim ao rito homoerótico,  que pseudo-héteros – como aquele da empresa de TV a cabo e banda larga – participam como viciados que cedem a fissura da droga. Guardou-se o membro dentro da calça, no seu local de repouso, com seu dono deixando o “templo”, pronto para um retorno qualquer, em busca de um fiel à espreita, que possa iniciar tudo outra vez.

Saí do mictório meio atordoado, refletindo sobre o mérito do subproduto líquido do ato da micção.

Alguns dias depois, eu caminhava pelos corredores do mesmo supermercado quando avistei a farda da empresa e percebi que se tratava do mesmo cara daquele dia no mictório. Com minha alma romântica, anotei meu telefone em um pedaço de papel e caminhei resoluto até ele para entregar-lhe o bilhete.

– Aqui está o número do meu telefone – lhe estendi o papel. – Me ligue se você quiser.

Ele pegou o papel e colocou no bolso sem me dizer uma só palavra.

Esperei durante todo o resto daquele dia. É claro, ele nunca ligou.

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