Telma, eu sou gay!

A primeira vez que Pedro teve certeza que era gay foi quando tinha 15 anos e se sentiu a pessoa mais feliz do mundo por está namorando um cara do Rio de Janeiro, que conheceu no bate-papo da UOL. Aquele era o seu maior segredo no início dos anos 2000.

Ao voltar para casa, depois uma tarde na lan house onde conheceu João, ele percebeu que o mundo a sua volta estava completamente diferente. Havia em tudo algum sentido.

Pela primeira vez na vida, começava a entender a si mesmo e a diferença entre ele e os outros meninos que ficavam de pau duro a ver revistas de mulher pelada. Não que seu pau não ficasse duro também nessas ocasiões, mas o que lhe causava esse efeito era ver a excitação dos outros meninos.

Pedro sempre foi um pouco retraído no que diz respeito a romance. Resultado de alguns traumas que colecionava desde cedo. Tinha tido algumas experiências frustradas de amor platônico na infância que, lhe ensinaram que amar é uma tarefa árdua para os heterossexuais, imagina para os gays.

Quando estava cursando o segundo ano do ensino fundamental, se apaixonou perdidamente por uma menina chamada Talita. Alta, magra de olhos verdes e um cabelo preto, liso e brilhante. Ela parecia a luz do dia de Pedro na escola. Ele a observava e admirava a maneira como ela se movia, como colocava o cabelo de maneira delicada atrás da orelha e sorria fechando olhos.

Aquilo era paixão, pelo menos, era o que ele pensava. E talvez fosse mesmo.

Talita nunca deu a mínima para ele ou para seus esforços sem sentido de chamar sua atenção, preferindo ser cortejada pelos outros garotos da escola, que eram mais esportistas, mais masculinos, enfim, mais heterossexuais.

A Pedro, restava apenas a tristeza de sua primeira rejeição heterossexual e as aventuras com os garotos da vizinhança.

Nessa mesma época, ficou mais próximo de um de seus vizinhos, que também tinha o nome de Pedro, mas que todos chamavam carinhosamente de Pêu. O garoto, de olhos cor de mel e cabelo queimado pelo sol, morava em um sobrado alugado pela família ao lado da casa de Pedro. Com idades aproximadas, os dois brincavam na rua todos os dias e passavam algum tempo juntos.

Certo dia, a casa abaixo do sobrado onde Pêu morava ficou vazia e a mãe do garoto ficou responsável por mostrar o imóvel aos interessados. Pêu, que era, de longe, mais esperto de que Pedro, logo chamou o vizinho para explorar a casa vazia, já que chovia naquele dia e os dois não podiam brincar na rua.

 Pedro aceitou o convite de maneira ingênua, sem imaginar o que se passava na mente do amigo.

No interior da casa, Pêu propôs que os dois fizessem uma “brincadeira”, que não poderia ser contada para ninguém, do contrário os dois levariam uma surra de seus respectivos pais.

– É apenas uma brincadeira, mas ninguém pode saber. Vamos fazer? – propôs o garoto de olhos cor de mel.

Pedro aceitou, mesmo sem entender qual o verdadeiro sentido daquilo. O dois tinham menos de 10 anos de idade e o sexo era uma das coisas que menos lhes representava algo de existencial na vida.

Abaixando um pouco o as bermudas com cós de elástico até o meio das coxas, começando por Pêu, os dois meninos passaram seus pênis um pelas nádegas do outro. Sem ereção, sem penetração qualquer, apenas pelo prazer do contato com o corpo de outro homem.

Aquele foi o segredo de Pedro em meado dos anos 1990. Um segredo que ele passou anos sem entender o significado, até “namorar” com o tal cara do Rio de Janeiro pela internet. Até compreender o porquê de ter deixado a casa vazia ao lado da sua, com a sensação de que havia feito algo tão natural, que era incapaz de compreender o porquê de uma surra caso a história viesse à tona.

Certa vez, pouco tempo depois dessa experiência, um amigo de Pedro lhe perguntou se era verdade que Pêu havia lhe comido o cu numa tarde de chuva. “Filha da puta”, pensou Pedro, “Disse que não era para contar para ninguém”.

 Obviamente, Pedro negou seu segredo, porque ainda temia a tal surra que seus pais lhe dariam, mas nem sabia ele, que o medo da surra cederia lugar a vergonha de ser diferente anos depois.

Na tarde, depois que começou a “namorar”, o adolescente Pedro, que sentia um aperto no coração cada vez que pensava na possibilidade de ser homossexual, conseguiu repetir com o sorriso no rosto, em voz baixa, três palavras que mudariam sua vida para sempre.

Ele era gay.

Ironicamente, naquele mesmo dia ouviu na televisão, enquanto assistia uma novela com os pais na sala, Ney Matogrosso cantar para uma tal Telma, que não era gay, que todos os boatos a seu respeito eram mentirosos e que havia deixado essa vida de lado. Logo Pedro criou uma conexão entre Pêu e o troca-troca na casa vazia e os outros amigos, que enchiam sua mente de um sentimento tão incompreensível enquanto folheavam uma Private empoeirada.

A música lhe constrangeu.

 A palavra gay, repetida duas vezes no refrão da canção teve o efeito das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki em sua mente. Cada uma delas seria lançada por um dos pais em sua vida se soubessem da novidade do filhote.

Estando feliz ou não com sua nova descoberta, Pedro entendeu naquela noite, na sala de estar, que era melhor deixar as coisas com Telma do jeito que estavam.

No fim da noite, o pensamento de ter um namorado era sua alegria mais reconfortante, tanto que adormeceu repetindo o primeiro verso do refrão da canção, mas sem a partícula negativa, porque pelo menos a tal Telma, ele podia dizer que era gay e nada de mal lhe aconteceria.

Ela era a única que saberia de seu novo segredo.

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